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Escola de Cambridge: o desabrochar do toque feminino na arquitetura

Embora exista desde a Idade Antiga, sendo um dos pilares que propiciou a organização social da forma como a conhecemos hoje, a arquitetura foi um território dominado apenas por homens por um longo tempo. Da época dos grandes faraós até o Renascimento, essa arte foi limitada a expressar e concretizar desejos que foram desenhados e executados pelo sexo masculino. No século XX, porém, as portas começaram a se abrir para uma igualdade maior de gênero, trazendo ao cenário o tão celebrado “toque feminino”.

Embora pouco conhecida do público em geral, a Escola de Cambridge teve um papel importantíssimo no ingresso da mulher nessa área, sendo responsável por fazê-lo de forma profissional. Fundada por Henry Atherton Frost em 1915, ela começou de forma despretensiosa: Frost, então docente da Escola de Arquitetura e Paisagismo de Harvard, foi procurado pelo diretor da instituição para ser o tutor de uma de suas alunas. Proibida de ingressar em Harvard, que só aceitava homens na época, a moça precisaria de um ano de preparação para iniciar os estudos em uma outra escola de paisagismo, tempo pelo qual estaria sob os cuidados de Henry. A tutoria se tornou séria e, com o pedido de 5 outras garotas que buscavam se inserir no mesmo programa, o projeto foi ganhando ares mais sérios e logo se tornou uma escola autônoma.

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Duas mulheres com tripé na Escola de Arquitetura de Cambridge. Fonte: Smith College.

Frost era um homem à frente do seu tempo: a metodologia adotada por ele buscava uma formação que desse às mulheres plenas condições de se desenvolverem na profissão que escolheram e, por isso, as aulas de paisagismo eram ministradas juntamente às de arquitetura – um pioneirismo para a época. Além disso, como forma de complementar a formação, a escola estimulava viagens para estudo, especialmente à Europa, e também que as alunas permanecessem o maior tempo possível nas dependências da escola, aperfeiçoando seus trabalhos e fortalecendo os laços entre elas próprias.  A entrevista de aprovação, que era conduzida pelo diretor, incluía uma conversa franca sobre o mercado de trabalho, as dificuldades pelas quais as alunas passariam nele e a real disposição delas em trilhar esse caminho tão sinuoso: afinal, uma sociedade patriarcal não estava preparada para acolher uma forma plural de pensamento e execução – ainda mais no ramo da construção. Frost, ciente essa barreira cultural, buscou um caminho alternativo a essas amarras.

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Sala de aula apenas com mulheres. Fonte: Journal of the Society of Architectural Historians

O primeiro passo tomado por ele foi instruir as alunas em arquitetura doméstica. Embora essa medida pareça contraditória, já que restringia o campo de trabalho a um ramo já considerado feminino, Frost buscava transformar o ensino em um ofício, evitando que as moças se tornassem instrumentos de enriquecimento cultural inaplicável – mostrar resultados claros era fundamental para que elas pudessem se equiparar aos homens na profissão. Além disso, inserindo-as num ambiente no qual elas já são vistas como pertencentes diminuiria, pelo menos a princípio, o preconceito do qual elas seriam alvo, garantindo a elas um campo seguro de atuação. Contudo, elas sempre foram estimuladas a se aperfeiçoarem em tantas áreas quantas quisessem e, de fato, desenvolveram projetos diversos, como pavilhões, auditórios e até mesmo cidades inteiras, e algumas ganharam prestígio. Eleanor Raymond, por exemplo, dirigiu o departamento de desenho da Radar School do Massachusetts Institute of Technology.

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Eleanor Raymond à direita da foto. Fonte: Cape Ann Museum

A instituição que, paradoxalmente, sempre funcionou nos arredores de Harvard, deixou de existir em 1941. A Segunda Guerra Mundial obrigou homens a se deslocarem para o front e esvaziou as salas de aula em Harvard, o que forçou a entrada de mulheres como forma de manter um caixa saudável. Embora se tenham poucos detalhes da razão principal do fechamento de Cambridge, sabe-se que essa escola sempre passou por dificuldades financeiras, que possivelmente foram acentuadas com a já referida abertura de Harvard para o sexo feminino. Felizmente, porém, a escola deixou um legado sem precedentes: 83% das formadas solteiras e 60% das casadas estavam posicionadas no mercado de trabalho, índices considerados altos até o dia de hoje. Cumprindo seu propósito de trabalhar pela igualdade entre os gêneros, Cambridge abriu um caminho sem volta, descobrindo e lapidando talentos e permitindo que o toque feminino invadisse territórios antes frios e cinzentos.

 

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